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sábado, 21 de maio de 2011

Alemães em Sintra no tempo de D.Fernando

Se D.Fernando Saxe Coburgo-Gotha principe alemão, filho do Duque de Saxe Coburgo  e  da Princesa Kohary da Hungria foi o príncipe mecenas de Portugal, e de Sintra, em  Portugal, outros alemães que com ele vieram ou conviveram ajudaram a moldar a Sintra romântica do sec XIX com marcas ainda hoje visíveis.
Entre eles, Friedrich Welwitsch, biólogo que em 1839 foi nomeado director do Jardim Botânico da Ajuda, Wenceslau Cifka, austríaco que arborizou a serra de Sintra da forma que ainda hoje conhecemos, ou o dr  Kessler, médico do príncipe-rei, cujo filho construíu o elevador(ainda existente) da Nazaré. Mas também o músico Victor Hussla,compositor da "Suite Portuguesa",o pintor  Katzenstein, e seu irmão, Emil Biel, que introduziu a fotografia em Portugal, a luz eléctrica,o primeiro gramofone, ou o primeiro automóvel, um Benz. Inclusivé por essa altura vieram os pais de Alfredo Keil,o autor do hino nacional anos mais tarde.
De todos se destaca contudo o  barão von Eschwege(na foto abaixo),que veio para Portugal como mineralogista em 1803,e que lutou enquadrado  no exército português contra o exército napoleónico, até 1810,quando foi chamado ao Brasil por D.João VI,onde se manteve 11 anos, em trabalhos topográficos e levantamentos. Regressado a Portugal, foi promovido a general e nomeado Intendente Geral das Minas e Metais do Reino, e a quem D.Fernando confiou a elaboração do projecto de transformar o convento jerónimo da Pena num monumento neo-gótico que representasse o imaginário de Portugal em pedra.
Também estes estrangeiros, portugueses de coração fizeram parte da história de Sintra

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dialogue Cafe, aproximar pessoas, cidades e culturas

O projecto dos Dialogue Café, criados em Maio de 2010, e que contou com o patrocínio do Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança das Civilizações, Dr. Jorge Sampaio, surgiu  para que a distância não seja pretexto para a falta de diálogo, de compreensão, de intercâmbio entre cidades do mundo e de culturas. O mote para a Aliança das Civilizações - “Aproximar culturas para construir a paz” - encaixa na iniciativa. Num gesto simbólico, as duas primeiras cidades a acolher o Dialogue Cafe foram Lisboa e Rio. Outras aderiram depois a esta rede global de espaços de interacção entre povos e culturas: Londres, Ramallah, Florença, Doha, Amesterdão, Nova Iorque, Cairo.E como poderão comunicar tantas pessoas em simultâneo com apenas um ecrã? A imagem surge quando os microfones detectam vozes. E assim vai aparecendo, nos ecrãs de todo o mundo, quem estiver a falar no momento. Poder-se-á estar em conversa entre dezenas de cidades diferentes e ver os interlocutores em tamanho real. E sem confusões. Cada um aparece na sua vez. Se se interessam por temas globais e querem expressar as vossas opiniões, ou recolher as de outros, adiram. Endereços electrónicos:

Educar para defender o património

Estimular a cidadania ao promover a educação e as boas práticas para a defesa do Património deve ser tarefa de todos ao serviço do interesse colectivo. Com a vida moderna, as memórias do passado e a diversidade criada pela natureza têm vindo a ser  destruídas  ou adulteradas  sistematicamente. Não se respeita a história (as tradições e as obras das gerações anteriores) nem a natureza (os ecossistemas  na sua diversidade). Para que as futuras gerações tenham uma ideia da riqueza do que foi produzido, para que sobrevivam amostras dos valores produzidos pela natureza ou pela história, é necessário defender esse legado  contra a miopia cultural ou devassa  inconsciente. O  processo de reconhecimento do valor do património por parte da sociedade  no seu todo, é tarefa urgente que deve ser incentivada na senda da cidadania  pro-activa e na construção de uma  prática colectiva de respeito pelos bens patrimoniais (materiais e imateriais) que nos cercam.
O valor que atribuímos aos locais, objectos ou memórias é decorrente da importância que lhes atribui a memória colectiva. E é esta memória que nos impele a desvendar o seu significado histórico, valorizando-os como traço de união com o futuro que é já hoje. É possível  e necessário  um desiderato  que permita e exija a participação cívica e que gere o envolvimento da sociedade com os bens patrimoniais e naturais que são a nossa Herança Comum.
A educação deve primar pelo desenvolvimento de acção pedagógica que valorize os bens patrimoniais  formando uma consciência visando a sua preservação, compreensão e divulgação, como instrumento de alfabetização cultural, através do diálogo cultural com outros e de processos de sensibilização, sacudindo  as mentalidades, cultivando a sensibilidade inter-cultural e a consciência necessárias à formação de  um novo paradigma. De certa forma, consagrando um novo Direito/Dever do Homem.
Este processo pode interagir com o ensino formal (escolas), e o não formal (comunidade, actores culturais, associações culturais ou de defesa do património etc). A cultura tem de ser transmitida propiciando a possibilidade de manter  a própria identidade. É a alma dum  país expressa através de saberes, celebrações e formas de expressão do povo, “materializados” no artesanato, nos costumes das comunidades, na  gastronomia, nas danças e músicas, festas religiosas e populares, nas relações sociais de uma família ou de uma comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cénicas e lúdicas, seja em espaços públicos, populares, colectivos ou religiosos.
É imperioso que as escolas se empenhem nesta missão, levando os alunos aos locais degradados para os sensibilizar sobre o que ali existiu e ainda pode vir a existir, contar a História, seja do grande guerreiro seja da simples lagartixa ou do doce conventual, impregnar o desejo de ver o património recuperado, incentivar o voluntariado cultural para a vigilância da natureza e civismo (evitando graffittis, piqueniques selvagens, passeios de mota selvagens ou despejo de detritos, p.e). Esse o desígnio e tarefa dos actores sociais e culturais, na Escola ou na Sociedade, e das associações ao nível local. Porque não visitar a Sintra das ruínas e dos monos, consciencializando e formando jovens para serem cidadãos e autênticos Guardiães do Património?
Nesse sentido, o processo de ensino e aprendizagem pode tornar-se um instrumento no despertar de uma consciência crítica e de responsabilidade para com a sua preservação, indo ao encontro do pensamento de Paulo Freire, na busca de uma  atitude  que capacite o educando na escola ou o cidadão  na sua rua ou cidade a compreender a sua identidade cultural e a  reconhecer-se  de forma consciente nos seus valores próprios, aumentando o seu "sentimento do nós".A postura que tomarmos diante do ambiente em que interagimos transforma-o, propiciando a nossa própria transformação. E para tanto, torna-se  necessário interagir pela percepção do que o outro  nos possa revelar e fornecer em conhecimentos e costumes, saberes inatos que nos servirão de material para a comunicação do nosso saber. Aprender e Defender o Património é também fazer Portugal.
Por fim, e materializando o atrás descrito,uma proposta e um desafio: porque não criar e promover núcleos de defesa do património envolvendo autarcas e sociedade civil e funcionando ao nível das juntas de freguesia, de modo  permanente, informal e interventivo? Uma ideia a desenvolver.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Frederico Silva Pereira, primeiro deputado por Sintra

Sintra foi «cabeça de círculo» em 20 eleições. Nas três primeiras – 1852, 1856 e 1858 – foi círculo plurinominal elegendo 2 deputados, nas restantes 17 foi círculo uninominal. Sintra foi um círculo eleitoral com uma elevada rotatividade dos seus representantes, além de que a maioria não tinha raízes locais. Aliás, a proximidade com Lisboa, centro do poder, tornava o círculo palco da colocação de deputados por parte do Governo (já então…) assim contribuindo para a solidez da maioria governamental. Embora quase sempre se registasse concorrência eleitoral, os deputados eram eleitos por largas maiorias. Tal demonstra que Sintra era tida como um círculo eleitoral manipulável pelos chefes partidários que nele faziam eleger o candidato que lhes conviesse. 
 Frederico Guilherme da Silva Pereira (1806-1871) foi o primeiro deputado eleito por Sintra em 1852. Era natural de Monção, onde nasceu a 28 de Abril de 1806, e morreu em Lisboa, a 18 de Fevereiro de 1871. Casou com Ana Cândida dos Reis, filha do último capitão-mor e primeiro presidente da Câmara de Sintra Máximo José dos Reis Membro de uma numerosa prole, era irmão de Francisco Xavier da Silva Pereira, 1.º conde das Antas, de José Joaquim da Silva Pereira, marechal de campo, de António Júlio da Silva Pereira, de Joaquim Narciso da Silva Pereira, general de brigada, todos parlamentares, e  ainda de Adriano Augusto da Silva Pereira, escrivão da Relação do Porto. 
Aluno das disciplinas de Retórica e Antiguidades no Colégio das Artes(Coimbra), formou-se em Direito (1827) e fez carreira da magistratura,ascendendo a juiz do Tribunal da Relação do Porto e depois a juiz presidente do Tribunal da Relação de Lisboa. Fez parte da Maçonaria onde chegou a grão-mestre do Círculo Irlandês de Lisboa (1853 e 1871). Era fidalgo da Casa Real e comendador da Ordem de Nossa Senhora de Vila Viçosa. Foi ministro da Justiça e dos Negócios Eclesiásticos no governo regenerador do duque de Saldanha (1853-1856), gerindo também interinamente a pasta da Fazenda (Novembro de 1855 a Janeiro de 1856), quando o colega Fontes Pereira de Melo se ausentou em missão financeira ao estrangeiro. Daí em diante, nunca mais regressou à política activa, embora o seu nome tenha ainda figurado no elenco da Comissão Central Eleitoral do Partido Regenerador, a quando das eleições de Maio de 1858.
Foi eleito deputado em 1851, pelo círculo de Arcos de Valdevez, e reeleito em 1852 pelo círculo de Sintra. Na primeira legislatura foi membro das comissões de Verificação de Poderes e de Petições, esgotando a sua actividade e as suas intervenções no despacho dos pareceres delas provenientes.
Na legislatura de 1853-1856, em que representou Sintra, prestou juramento a 31 de Janeiro de 1853 e, de novo, a 24 de Dezembro desse ano, por ter saído «reeleito» pelo círculo de Sintra, no escrutínio suplementar realizado após ter terminado o mandato ministerial. Integrou, então, as comissões de Verificação de Poderes, Justiça, Legislação e Infracções (sendo membro-vogal desta última), bem como, em 1853, a importante Comissão Especial encarregada de dar parecer sobre o Bill de Indemnidade às ditaduras saldanhistas de 1851 e 1852. 

Silva Pereira apresentou um projecto de lei abolindo os castigos corporais militares, por serem «incompatíveis com a civilização e a humanidade» e defendeu um reforço de verbas para as obras públicas na região do Porto, em especial destinadas à reparação e conclusão da estrada Vila Nova de  Gaia-Lourosa. Foi quando sobraçou a pasta da Justiça (a partir de Setembro de 1853) que Silva Pereira passou a apresentar obra, não só na Câmara dos Deputados, mas também na Câmara dos Pares, onde interveio em diversas ocasiões no âmbito da gerência da sua pasta ministerial. Em nenhuma das suas iniciativas legislativas há qualquer referência a Sintra e ao seu concelho

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Stakeholders

Às partes interessadas nas práticas de governação corporativa executadas pelas empresas chamam os tecnocratas stakeholders. O termo foi usado pelo filósofo Robert Edward Freeman e segundo ele, os stakeholders são elementos essenciais ao planeamento estratégico de negócios. De maneira mais ampla, compreende todos os envolvidos num processo. O sucesso de qualquer empreendimento depende da participação das partes interessadas e por isso é necessário assegurar que as expectativas e necessidades sejam conhecidas e consideradas pelos gestores. De modo geral, essas expectativas envolvem satisfação de necessidades, compensação financeira e comportamento ético.Cada interveniente ou grupo de intervenientes representa um determinado tipo de interesse no processo. O envolvimento de todos os intervenientes não maximiza obrigatoriamente o processo, mas permite achar um equilíbrio de forças e minimizar riscos e impactos negativos na execução desse processo.
Uma organização que pretende ter uma existência estável e duradoura deve atender simultaneamente as necessidades de todas as partes interessadas.
Vem isto a propósito de na gestão de empresas ou projectos com implicação em certos grupos e na sociedade civil em geral, as organizações internacionais recomendarem hoje a auscultação e participação activa de stakeholders locais na implementação e prossecução de projectos com repercussão na comunidade. É o caso em Sintra de recomendações da UNESCO no que à gestão do Património mundial concerne, posição vertida na Declaração de Aranjuz sobre Paisagens Culturais, de que Sintra é subscritora, e do direito/dever de participação.
Não sendo muito frequente tal prática entre nós, registe-se contudo o exemplo- pela excepção – da relação que a empresa Parques de Sintra Monte da Lua assumiu junto dos defensores do património e associações locais no que a tal matéria concerne, na perspectiva de a todos envolver visando as finalidades supra descritas.
Responsável pela gestão e recuperação de importante património na área de Sintra, a PSML tem procurado ouvir os parceiros da sociedade civil, convidando-os para reuniões e visitas, recolhendo contributos e associando-os ao evoluir das obras em curso, mostrando trabalho e discutindo com eles. No meu caso pessoal, como presidente de uma associação local diversas vezes no último ano e meio fui convocado para iniciativas, reuniões com técnicos, visitas a obras e pareceres sobre planos de gestão. E o que parecia ser a esmola em demasia fazendo desconfiar o pobre, pode hoje considerar-se uma prática salutar e instituída que se espera não se quebre com futuras mudanças de protagonistas nos órgãos de gestão.
Sente-se uma mudança de paradigma na gestão da "jóia da coroa":a filosofia de "abrir para obras" acompanhando as recuperações em curso é internacionalmente aconselhada, já o verificámos no  caso do Chalé da Condessa, o diálogo com a sociedade civil, nem sempre presente na nossa cultura de procedimento dá alguns passos. Mas muito trabalho há a fazer e necessário se torna criar estrutura física e mental para que o trabalho em curso não seja resultado apenas do maior ou menor voluntarismo das equipas directivas que estão no momento. Penso inclusive que o modelo adoptado ainda pode ser melhorado do ponto de vista da institucionalização de um areópago onde as vozes plurais dos actores da sociedade civil estejam representadas de forma regular. Mas tal como é dever das instituições abrirem-se à sociedade, imperioso se torna uma maior tomada de consciência da sociedade de que não deve deixar as respostas todas em mãos alheias e se deve empenhar mais em causas que são de todos. Só assim a democracia será madura e os cidadãos o serão em plenitude.

terça-feira, 17 de maio de 2011

O Governo das Autarquias



Trinta e cinco anos de experiências autárquicas, demonstram que é chegado o momento do virar de página no quadro territorial, de competências e de gestão das mesmas.
Há hoje em Portugal 308 concelhos e 4100 freguesias. Litoralizado o país, florescendo conurbações interligadas nas áreas metropolitanas de Lisboa e Porto, sobretudo, impõe-se um novo quadro, não só porque a troika em “economês” o diz mas porque realidades há que exigem novas abordagens, unificando concelhos ou reajustando outros, pesem os bloqueios de paróquia que mais se devem afirmar no quadro de afirmação cultural que  na representação institucional.
Por outro lado, mais ágil e adequado se afigura um modelo eleitoral em que as candidaturas sejam para a Assembleia Municipal, sendo presidente o candidato da lista mais votada, e os demais tendo assento na Assembleia, esta com poderes reforçados. O presidente, livre de escolher a sua equipa, apresentaria programa à Assembleia, poderia ser objecto de censura, em tudo acompanhando o modelo actualmente usado com o Governo. Sugeriria que, introduzindo a “nuance” da obrigação de, derrubado um executivo, os opositores deverem apresentar alternativa clara, a sós ou em coligação, em nome do princípio da governabilidade (moção de censura construtiva). Os membros da vereação poderiam ser livremente nomeados e demitidos pelo presidente, e este teria poderes reforçados, havendo vantagens na presidencialização do presidente da câmara, evoluindo do actual modelo para outro mais eficaz. O mesmo mesmo quadro para as juntas de freguesia, igualmente sujeitas a reorganização territorial
No quadro da gestão, haveria que criar sistemas de gestão partilhada de serviços e pessoal, num quadro inter-municipal e regional, numa economia de meios e reforço de recursos. Porquê a proliferação de serviços de águas, lixo, cultura, protecção civil por cada município, quando num quadro integrado se poderia obter vantagens de gestão, força de reivindicação, e operacionalidade reforçada?
O quadro das despesas deveria contemplar a maleabilidade do outsourcing, a eliminação de serviços duplicados e o das receitas, derramas sobre as mais-valias a favor de obras ou acções de interesse comunitário e maior participação na fatia dos impostos nacionais . O cheque para a cultura, em que 1% dos impostos e taxas cobrados serviria para financiar um fundo de promoção cultural gerido pela autarquia e pelos agentes culturais, e as isenções de parte do IMI para os proprietários que reabilitassem seriam outras medidas bem vistas.
No quadro do planeamento, prioridade à reabilitação urbana, agilizando os planos de pormenor, reduzindo os pareceres de entidades sempre que haja plano director aprovado e dispensando prazos de apreciação quando os pedidos se ajustassem a plano-tipo que a autarquia disponibilizaria.O recurso a empresas externas para a apreciação de projectos ou a manutenção de equipamentos num quadro de igualdade de oportunidades seria igualmente interessante.
Sobretudo, olhando a floresta  de oportunidades que temos pela frente, ter um plano de conjunto da soma das várias árvores, podando as fracas, abatendo as doentes e plantando novas espécies, mais de acordo com o clima e a época de sementeira que o país atravessa. Voltarei ao tema.

domingo, 15 de maio de 2011

A verdade sobre Byron em Sintra

Quando se fala de Sintra no sec XIX a figura mais recorrente é a de Byron,que no Lawrence Hotel terá escrito parte do seu Child Harold Pilgrimage, onde dedica uns versos a Sintra.Ora não só Byron apenas por Sintra se deteve quatro dias como essa obra data apenas de 1812.
Lord Byron, ou George Noel Gordon,tinha 21 anos quando a 7 de Julho de 1809 chega a Lisboa, em plena ocupação francesa e inglesa, com o rei no Brasil e a anarquia nas ruas.Embarcara em Falmouth, com o seu amigo John Hobhouse e os criados Fletcher, Murray e Bob, e já era membro da Câmara dos Lordes e autor editado nessa altura. Visitou Sintra,Mafra e Lisboa, e deixou Portugal a 17 de Julho, tendo permanecido apenas 10 dias entre nós, mas os suficientes para desprezar os portugueses(“terra sanguinária onde a lei não basta para proteger a vida”) e emular a bela e verdejante Sintra
Consigo viajou em 1809 um outro inglês, John Cam Hobhouse,que nos deixou um relato da sua visita a Sintra, no âmbito dum diário de viagem escrito em latim, e de que respingamos extratos, traduzidos em português:
 John Cam Hobhouse, o amigo de Byron
2ªF,12 de Julho de 1809"-Fui com Marsden de caleche até Sintra, numa estrada com muitas curvas, três jugos de vinho, pão e queijo e trinta dinheiros. Vimos o palácio de Marialva em Sintra e os jardins de Monserrate, antes propriedade do sodomita inglês Beckford, agora deserto e sem mobília. Entretanto, Byron foi a Mafra visitar o palácio e convento, onde antes da invasão francesa os frades eram 150 e agora só 30(...)Jantei em Sintra com três clérigos Scott, Simmons e Turner e passei lá a noite"
3ªF,13 de Julho de 1809-"De burro, fomos a Nossa Senhora da Pena, ao mosteiro de S.Jerónimo onde vivem 4 monges, pobres mas não mal vestidos. E ao Cork Convent(Capuchos?)na parte mais alta da região, com 17 franciscanos que não comiam carne nem bebiam vinho e se flagelavam. Mostraram-nos uma cave no jardim (...)o seu abade pôs-nos queijo e laranjas numa mesa de pedra. Descemos então das alturas e visitámos Colares, bela vila, com vinho abundante, clarete, e tornámos a Monserrate, um palácio só excedido pelo de Marialva em Sintra. Aí jantámos com o bom reverendo Turner. Noite em Sintra".
4ªF,14 de Julho de 1809-"-Fomos visitar com Byron,e por sugestão da irmã de Marialva, o seu palácio, ricamente decorado em estilo inglês(Seteais)e estivemos na sala onde a famosa Convenção  foi assinada e vimos um mosteiro do lado oposto. Dissemos adeus a Sintra, onde havia no hotel vários hóspedes embriagados e uma mulher suja irlandesa nos entregou uma monstruosa conta de 40 dollars e meio (...)Lendo acerca de Sintra, descubro que a humidade é causada por exalações de vapor"
A 16,escrevia Byron para Inglaterra:
Ao Sr. Hodgson] "Lisboa, 16 de Julho de 1809."
"Até ao momento temos seguido a nossa rota, e visto todo o tipo de panorâmicas maravilhosas, palácios, conventos, &c., - o que, estando para ser contado na próxima obra, Book of Travels, do meu amigo Hobhouse, eu não anteciparei transmitindo-lhe qualquer relato de uma maneira privada e clandestina. Devo apenas observar que a vila de Cintra, na Estremadura, é talvez a mais bela do mundo.
Sinto-me muito feliz aqui, porque adoro laranjas, e falo um latim macarrónico com os monges, que o compreendem, uma vez que é como o deles, - e frequento a sociedade (com as minhas pistolas de bolso), e nado ao longo do Tejo, e monto em burros ou mulas, e digo palavrões em Português, e sou mordido pelos mosquitos. Mas quê? Aqueles que efectuam digressões não devem esperar conforto.
Quando os portugueses são pertinazes, eu digo 'Carracho!' - a grande praga dos fidalgos, que muito bem ocupa o lugar de 'Damme!' - e quando fico aborrecido com o meu vizinho declaro-o 'Ambra di merdo' [por 'Homem de merda' ?]. Com estas duas frases, e uma terceira, 'Avra bouro' [por 'Arre burro' ?], que significa 'Get an ass' ['Arranja um burro' ...!?!, obviamente uma tradução incorrecta.], sou universalmente reconhecido como pessoa de categoria e mestre em línguas. Quão alegremente vivemos sendo viajantes! - se tivermos comida e vestuário. Mas, em sóbria tristeza, qualquer coisa é melhor do que Inglaterra e eu estou infinitamente divertido com a minha peregrinação, até ao momento.
Amanhã começaremos a percorrer cerca de 400 milhas até Gibraltar, onde embarcaremos para Melita [por 'Melilla' ?] e Bizâncio. Uma carta para Malta aí me encontrará, ou será reexpedida caso eu esteja ausente. Rogo-te que abraces o Drury e o Dwyer, e todos os Efésios que encontres. Escrevo com o lápis que me foi dado pelo Butler, o que torna o mau estado da minha [escrita?] mão ainda pior. Perdoa a ilegibilidade.
Hodgson! Envia-me as novidades, e as mortes e as derrotas e crimes capitais e as desgraças dos amigos; e dá-nos conta das questões literárias, e das controvérsias e das críticas. Tudo isto será agradável - 'Suave mari magno, &c.'. A propósito, tenho andado enjoado e farto do mar. Adieu."
Depois,  foi o regresso a Lisboa, onde a 17, rumou a Sevilha, enquanto o seu companheiro e os criados seguiam para Gibraltar. Para sempre ficou o Delicious Eden....

sábado, 14 de maio de 2011

Um palazzo entre Galamares e Colares

Juan Francisco Affaitatti, de Cremona, fixou-se em Lisboa no final do século XV, ligado ao tráfico negreiro, ao comércio do açúcar da Madeira e às especiarias. Foi armador da segunda frota que foi à Índia em 1502, e nos primeiros anos actuou como espião de Veneza informando-a dos descobrimentos portugueses. Entre 1508 e 1514, a troca de um contrato de pimenta, ficou obrigado a pagar as despesas das praças militares de África, das Casas da Suplicação e do Civil.

As suas origens são obscuras. Segundo alguma bibliografia, seria filho natural ou irmão do conde Ludovico de Cremona. Por sua vez, o conde de la Vauguyon afirma que o biografado era filho de um modesto negociante lombardo. Existiam mesmo rumores de existir sangue judaico nos Affaitati.A partir de Juan Francisco, encontravam-se entre as proles de mercadores que controlavam as rotas comercias entre o sul e o norte da Europa, sendo pioneiros no comércio de pedras preciosas. Antuérpia era a sede desses negócios que se disseminavam por outros focos mercantis europeus. Foi ainda no decorrer do século XV que João Francisco Affaitati se estabeleceu em Lisboa. Tinha a missão de informar Veneza sobre os resultados das expedições ultramarinas portuguesas, mantendo, assim, uma estreita relação com os representantes da Sereníssima na capital portuguesa, nomeadamente com Pietro Pasqualigo. Quando a frota de João da Nova regressou da Índia, Affaitati escreveu, com data de 10 de Setembro de 1502, uma carta a Pasqualigo, então em Madrid.
Nesse mesmo ano, Affaitati armara uma das naus que partiram rumo à Índia, acompanhando a segunda armada de Vasco da Gama. O seu feitor Matteo di Bergamo seguia nessa nau. Esta viagem foi-lhe particularmente lucrativa segundo revela numa carta escrita a 14 de Setembro de 1503 e dirigida a Domino Lucha e aos seus irmãos em Cremona: “de nostra parte sempre haveremo tante spiziarie vellerano zercha ducati 5000, et lo capital fo ducati 2000, pocho piú [...]”.
Dedicado ao comércio de especiarias, estabeleceu negócios com os cristãos-novos Francisco e Diogo Mendes. Entre 1508 e 1514, os Affaitati e os Gualterrotti, por concessão de D. Manuel, tinham o monopólio da venda de especiarias nos Países Baixos, período durante o qual fizeram contratos no valor de 117 004 880 réis. Juntaram-se a esse contrato outros mercadores italianos, os Fugger e os Welser. O sobrinho Gian Carlo Affaitati e o genro João Carlos Doria eram os seus representantes em Antuérpia.
A 10 de Junho de 1513, D. Manuel renovou por mais um ano o contrato em que Affaitati se comprometia a comprar dois mil quintais de pimenta, por ano, à coroa. Segundo um outro alvará desse mesmo ano, o mercador encontrava-se obrigado a carregar a pimenta para o Levante sem poder vendê-la em Lisboa. Em 1525, João Francisco assinou um contrato com o rei sobre a compra de 13 mil quintais de pimenta a 34,25 cruzados o quintal, 400 quintais de cravo a 50 cruzados, 700 quintais de canela a 65 cruzados e 2 mil quintais de gengibre a 30 cruzados.
Affaitati negociava também no açúcar da Madeira. Em 1502, em conjunto com Jerónimo Sernigi e João Jaconde arrematava trinta mil arrobas de açúcar destinadas a Águas Mortas, Livorno, Roma e Veneza. Dois anos depois, celebrava um contrato para a compra de 3500 arrobas e, em 1512, um novo contrato para a compra de seis mil arrobas de açúcar. Passados quatro anos, arrematava os quintos e os dízimos sobre o açúcar branco, contratos que repetiu em 1518, 1520 e 1521, estes dois últimos anos em parceria com Janim Bicudo. Entre 1502 e 1529, comercializou 177907,5 arrobas de açúcar da Madeira, notabilizando-se como o maior negociante desta mercadoria durante aqueles anos.
A sua fortuna e os seus negócios tornaram-no credor da coroa. Em 1509, o rei ordenava que lhe fossem entregues 8283 arrobas e 5,5 arráteis de açúcar em pagamento de diversas dívidas. Num mandado de 28 de Abril de 1528, a rainha ordenava que se pagasse a Affaitati 512400 réis que tinha em dívida.
Dada a prosperidade dos seus negócios, desfrutava de uma posição social privilegiada, similar à dos florentinos Sernigi e Marchionni. Foram-lhe mesmo confiados privilégios semelhantes aos que tinham os mercadores alemães.
O prestígio da família continuou com os seus descendentes. Após a sua morte, quem ficou a representar os interesses dos Affaitati em Portugal foi o genro e sobrinho, João Carlos Dória, o qual se casara com a sua filha Lucrécia. Em Carvalhal do Bombarral, construiu um solar conhecido por Solar da Quinta dos Loridos .
Nunca se chegou a casar, embora lhe sejam conhecidos seis filhos: Cosme, Agostinho, Inês e Madalena Affaitati, filhos de Maria Gonçalves, cristã-nova e fanqueira; Lucrécia e Antónia Affaitati, filhas de Branca de Castro, cristã-nova de Setúbal.
Através dos enlaces matrimoniais dos seus filhos, Affaitati consolidou a sua rede de influências e a sua posição social. Cosme e Agostinho Affaitati, casados com D. Maria de Vilhena e D. Maria de Távora, e de Inês Affaitati, esposa de D. Leonardo de Sousa. Agostinho foi trinchante-mor de D. João III.
Cosme, aportuguesado Lafetá, será o comandante das forças portuguesas na tomada do morro de Chaul, na Índia, em 1540. Francisco de Andrade, nos Comentários, apresenta-o como «general da nossa gente de guerra em tôda a costa do Norte com muitos poderes, que o Viso-Rei lhe dera, um fidalgo de grande ânimo e conselho chamado Cosmo de Lafetar"
Cosimo Affaitati, por volta de 1540 também, construiu no sopé da Serra de Sintra, junto a Colares, um palácio renascentista, numa altura em que  havia já adaptado o apelido de Lafetá. Quem de Galamares siga para Colares, na estrada nacional, quinhentos metros depois encontra um sítio a que os locais chamam Quinta do Cosme( foto abaixo).Cosme era Cosimo, e o palazzo jaz em ruínas, apenas restando uma fachada consumida pelo tempo,  classificada como de interesse concelhio mas ao abandono. Quando forem até à praia, detenham-se um pouco e recuem quatrocentos anos, e aí poderão imaginar Juan Francisco e Cosimo Affaitati, ou Lafetá.
                                   Quinta de Cosimo, foto Pedro Macieira

Wim Wenders na Praia Grande

  Filmagens no Hotel das Arribas, Praia Grande
Sintra e o seu litoral também no cinema marcaram a sua presença. Sem falar do último Paul Auster rodado  na Aguda, ou a"Nona Porta" de Polanski com cenas na Vila e no Chalet Biester, também em 1982 aqui esteve Wim Wenders para a realização, em grande parte na Praia Grande, do filme que lhe rendeu o Leão de Ouro em Veneza, quase todo rodado em Portugal, e onde num ambiente intimista vários personagens, a preto e branco, dissertam sobre a sua existência, aqui e ali se reconhecendo paisagens a todos familiares, de Almoçageme à Praia Grande.

Rodado em Portugal há  mais de  30 anos, «O Estado das Coisas», de Wim Wenders, decorre durante as filmagens,( na Praia Grande), de uma fita de ficção científica de série B intitulada «Os Sobreviventes», a qual é o remake de um velho título de Roger Corman, «The Day the World Ended». (Corman aparece brevemente no final, em Los Angeles, numa das muitas piscadelas de olho cinematográficas que Wenders faz ao longo da história).
Sendo um filme que glosa um tema caro a Wenders, a passagem do tempo sobre pessoas errantes ou, no caso, inactivas (o dinheiro e a película acabam e a equipa de «Os Sobreviventes» fica sem fazer nada num hotel à beira-mar), e que confronta, nas pessoas de um realizador europeu (Patrick Bauchau) e do seu produtor americano (Allen Goorwitz), duas formas opostas de fazer cinema, «O Estado das Coisas» transformou-se sem querer, e pela acção inexorável do tempo num filme de fantasmas. Lá estão, já desaparecidos Henri Alekan, Samuel Fuller e o seu charuto, Robert Kramer silencioso, Artur Semedo e a sua luva preta.

Em redor deles, surge um Portugal tristonho e apático, ainda com vestígios do PREC visíveis nos muros e paredes, sem telemóveis nem computadores, e com preços arqueológicos (bife grelhado, 125 escudos, lê-se num menu do hotel da praia).Também dos testemunhos contemporâneos se faz a história de Sintra. Um pequeno clip:

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Chaves Mazziotti, deputado de Sintra

Uma das figuras mais em evidência no Colares do fim do século XIX foi António Chaves Mazziotti. Mazzotti nasceu em Colares, Sintra em 21 de Fevereiro de 1843 e faleceu em Lisboa a 10 de Maio de 1912, filho do comendador António Mazziotti Júnior e de Maria do Carmo Zeferino de Azambuja .Chaves Mazziotti seguiu as pisadas do pai - atingiu a posição de maior contribuinte do concelho de Sintra - e foi uma personalidade destacada na vida social local. Participou na fundação do antigo Jornal de Cintra (1885), primeiro periódico da era moderna da imprensa sintrense, era sócio da Sociedade União Sintrense, membro da Misericórdia local e um dos fundadores dos Bombeiros de Colares. Foi o maior entusiasta do nascimento da Praia das Maçãs, integrando a comissão que desde 1884 lançou a construção da estrada do Banzão à nova localidade e presidindo à «Sociedade Edificadora» constituída para o progresso da Praia das Maçãs. Pertenceu à Real Associação Central da Agricultura Portuguesa (17.5.1869 a 10.4.1877) e faz parte da direcção desta associação em 1872. Possuía várias comendas nacionais e estrangeiras, o título de fidalgo-cavaleiro da Casa Real (5.2.1877) e foi agraciado com a carta de Conselho em 1910. 
Casou com Heloísa de Almeida e Albuquerque, filha de Luís de Almeida e Albuquerque, fundador do Jornal do Comércio e director da Escola Politécnica. Entrou na política aos 16 anos, filiando-se no Partido Histórico (20.1.1860), e foi depois figura proeminente do Partido Progressista. Detinha o n.º 3 na lista de filiados de Lisboa, logo a seguir a José Luciano de Castro e a D. Miguel Pereira Coutinho e pagava a mais avultada quota (mil réis mensais), além de se afirmar como o maior influente político no concelho de Sintra. Durante 17 anos pertenceu à Junta Geral do Distrito de Lisboa  e, em representação da Câmara dos Deputados e do Governo, substituíu Wenceslau de Lima (alta figura regeneradora que chegaria a primeiro-ministro) como vogal e secretá-rio da Junta de Crédito Público. 
Foi pela primeira vez candidato a deputado em 1878, apresentando-se no círculo uninominal de Sintra, mas foi derrotado por Francisco Joaquim da Costa e Silva, que anteriormente já vencera seu pai. Em 1879 voltaram a defrontar-se, mas desta vez a vitória coube a Chaves Mazziotti que veio novamente a representar o círculo de Sintra em resultado das eleições de 1887, 1889, 1897, 1899 e 1900 Em 1886 chegou ao Parlamento como deputado por Beja, vencendo uma eleição suplementar. A partir de 1901 e até à última eleição monárquica, em 1910 (exceptuando a de Abril de 1906), com a inclusão de Sintra no círculo plurinominal de Lisboa ocidental  (lei eleitoral de 1901), passou a ser eleito nesta circunscrição (juramento  a 18.3.1902, 4.10.1904, 10.4.1905, 2.10.1906 e 2.5.1908, respectivamente).
Na Câmara dos Deputados participou em diversas comissões, pertencendo à Comissão de Agricultura em nove sessões legislativas. Quanto às intervenções no plenário foram em grande medida centradas nos problemas do seu círculo eleitoral: cobrança de impostos, caminho de ferro, organização da justiça, financiamento da construção de repartições públicas, questão da filoxera, crise vinícola, acção do administrador do concelho, criação de escolas, conservação e construção de novas estradas, apoio à instalação e exploração da iluminação eléctrica, etc. No plano da política geral destaque para propostas e projectos de lei sobre sociedades anónimas a inserir no Código Comercial (20.2.1888); de alteração de um artigo do Código Administrativo (23.5.1888); de manutenção do círculo eleitoral de Sintra sem agregação do concelho de Cascais, zona onde detinha reduzida influência política (4.7.1899); de fornecimento pelo Estado do bronze necessário à construção da estátua a Afonso de Albuquerque (7.6.1899); de proibição do uso de margarinas ou outras substâncias no fabrico de manteiga (27.5.1903) e sobre a fiscalização da denominação de origem dos vinhos (29.1.1907).
Chaves Mazziotti não produziu nenhum discurso de fundo, não discutiu qualquer das grandes questões políticas no parlamento nem foi relator de qualquer parecer de comissão. Manifestamente não possuía dotes oratórios, limitava-se a curtas intervenções e a pequenos textos de fundamentação dos seus projectos de lei. Como momentos altos na sua carreira de deputado poderão destacar-se 1899, quando efectuou o maior número de intervenções no hemiciclo; a sessão de 8.3.1901, quando quebrou a sua proverbial solicitude e interrompeu o primeiro-ministro Hintze Ribeiro, contradizendo a explicação sobre um conflito entre polícias e estudantes na Escola Politécnica, e a sessão de 29.1.1904 quando se manifestou contra um emergente sinal do progresso técnico ao defender o fim dos «passeios de automóveis pelas ruas da cidade de Lisboa» porque «ninguém se utiliza de um automóvel para fazer compras ou visitas». 
Depois do 5 de Outubro manteve-se fiel ao ideal monárquico, mas afastou-se da política. Frequentava os cafés, como o Baltresqui e a Havaneza do Chiado, onde passava horas em amena cavaqueira e tendo por vezes ditos espirituosos que faziam época, um estilo que nunca patenteou enquanto deputado.Sua filha Maria do Carmo casou com o conhecido cientista Carlos França.
A QUINTA MAZZIOTTI
A casa onde morou é um dos ex-libris de Colares, conhecido como Quinta Mazziotti-França, e teve as suas origens em 1588,quando Filipe II concedeu a um músico da sua corte, António Roiz de Arouche, os direitos sobre as águas da Serra de Sintra. Das primeiras edificações então realizadas, nada chegou até nós, desconhecendo-se, por completo, quais as infra-estruturas patrocinadas por Arouche. O conjunto habitacional que hoje se pode contemplar- então chamado Quinta da Porta ou dos Fieis de Deus- data do século XVIII e foi originado a partir da venda da propriedade por Manuel Francisco de Arouche, em 1758. O novo dono, Bento Pereira Chaves, era cavaleiro da Ordem de Cristo, criado de D. José, fundidor da Casa da Moeda e, mais importante pela ligação à propriedade, sargento-mor de Colares, o que explica a opção por este espaço para sua residência.A partir desta data, foi objecto de uma ampla reforma arquitectónica, continuada posteriormente por seus filhos, José Dias Pereira Chaves e Sebastião Dias Pereira Chaves, este último afilhado do Marquês de Pombal.Em 1830, Maria do Carmo, filha única de Sebastião Chaves, casou com António Mazziotti, diplomata italiano de serviço no nosso país, e pai de António Chaves Mazziotti, passando a quinta a ter o seu nome. Até que depois de alguns destaques, foi adquirida por João Francisco Justino, antigo presidente da Câmara de Sintra. Mas foi António Maria Dias Pereira Chaves Mazziotti o membro da família que mais marcou a vida de Colares, a par de figuras como Alberto Tota, Brandão de Vasconcelos, Arlete Reis ou José Inácio da Costa, pelo seu papel de filantropo e político.